quinta-feira, 28 de abril de 2011

(Re)conhecer...

Pode ser que no ano que vem, ou daqui a alguns anos, ou até mesmo algumas décadas,
nós não nos (re)conheçamos mais.
Você pode ter mudado, eu posso ter mudado, o ambiente à nossa volta pode ter mudado,
e nós não nos (re)conheçamos mais.

Você pode ter ficado mais careca ou mais gordo, ou mais magro até,
eu também posso ter ficado mais gordo (provavelmente) ou mais magro, e com certeza mais careca do que já estou,
e nós não nos (re)conheçamos mais.
Você pode ter ficado mais sério ou mais brincalhão, talvez até mais chato ou mais simpático,
bem como eu posso ter ficado mais sério ou mais brincalhão, mais chato ou mais simpático,
e nós não nos (re)conheçamos mais.

Você pode ter mudado suas opiniões acerca do mundo e da vida, e eu ter continuado com as mesmas opiniões,
ou posso eu ter mudado minhas opiniões e você continuado com as mesmas,
e nós não nos (re)conheçamos mais.
Você pode ter ido para a África, para o Chile, Europa ou Venezuela, e aprendido que as lições que aqui vivemos eram tão pequenas que nem vale a pena lembrar, e eu tenha ficado por aqui,
ou tenha sido eu que, ao viajar o mundo inteiro, aprendi novas lições, enquanto você permaneceu com as mesmas,
e nós não nos (re)conheçamos mais.

Pode ser que eu tenha ficado mais político, ou mais antipático, ou até mais patético,
e que você tenha sido sintético e agora é poético, de uma poesia não mais perfeita do que aquela que a própria realidade nos revela,
e nós não nos (re)conheçamos mais.

Pois bem...
À medida que a gente não se (re)conheça mais, chegou a hora de se re-conhecer.
E eu estou disposto, por toda a vida, a querer re-conhecer-ter,
a querer re-conhecer aqueles amigos que um dia fizeram parte da minha jornada,
com a mesma alma de menino com a qual eu os conhecera um dia,
com a mesma molecagem...
Talvez mais sério ou mais malandro, mais covarde ou mais corajoso,
mas com a mesma sinceridade.

E com certeza mais careca.

Mas ainda que eu esteja diferente, saiba que sou o mesmo moleque de sempre.

O que não posso deixar que aconteça é ver os meus amigos de outrora se tornando os desconhecidos de agora,
e envelhecer sabendo que tenho vários desconhecidos ilustres ao meu redor, enquanto os meus velhos amigos se tornaram des-conhecidos.
Não poderia viver suportando esta dor, não conseguiria.

Por isso, peço a você, meu caro e velho amigo,
que esteja disposto a me conhecer mais uma vez,
assim como eu estou disposto a te reconhecer mais uma vez,
e que assim nós nos re-conheçamos um ao outro.

Talvez até consigamos ser, deste jeito,
de volta, mais do que velhos conhecidos...

E talvez a nossa amizade se perpetue, eternizando-se nas nossas faces re-conhecidas,
nas nossas ausências re-conhecidas,
no nosso afeto reconhecidamente re-conhecido.

Para isso, é preciso estar disposto a conhecer mais uma vez,
conhecer a cada retorno, a cada encontro numa mesa de bar, a cada conversa de poucas palavras que a gente travar...

Prazer, eu sou Renato. Quer me RE-CONHECER?


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